Por John Quam, Editor-chefe

Quando me mudei para a Costa Rica, há quase doze anos, fui interrompida no meio de uma frase por algo pequeno, mas que mudaria tudo. Eu havia dito casualmente que era “americana”. Um amigo costarriquenho sorriu e, sem qualquer traço de sarcasmo, respondeu: “Eu também”. Foi uma simples correção, mas revelou uma verdade que eu nunca havia questionado: a palavra América Não pertence a um único país. Pertence a as Américas Dois continentes, que se estendem do Ártico à Patagônia, unidos pela história, pela geografia e pela humanidade em comum.

Vamos começar pelo básico. A palavra América apareceu pela primeira vez em 1507, em um mapa desenhado pelo cartógrafo alemão Martin Waldseemuller, que rotulou as terras recém-mapeadas após Amerigo Vespucci, um explorador italiano. Vespucci foi um dos primeiros a reconhecer que esses territórios não eram a Ásia, como Colombo acreditava, mas uma massa de terra inteiramente nova. O mapa de Waldseemüller intitulado Universalis Cosmographia imortalizou o nome "América", originalmente referindo-se à América do Sul, antes de ser usado também para o continente do norte. Em outras palavras, a palavra América é anterior aos Estados Unidos em mais de dois séculos e meio.

Por definição, “América” se refere a a massa terrestre combinada da América do Norte e do Sul, incluindo 35 países independentes e mais 1 bilhão de pessoasContudo, hoje, basta dizer a palavra "América" ​​e a maioria das pessoas instintivamente imagina os Estados Unidos. Hollywood, a política e o marketing global garantiram isso. De alguma forma, com o tempo, uma nação conseguiu se apropriar de um nome que deveria representar todo um hemisfério. É colonização linguística, daquela silenciosa que se infiltra na fala até soar natural.

É quase cômico quando você pensa nisso. Imagine se a França se autodenominasse... Europa ou se o Egito mudasse de nome ÁfricaO mundo inteiro zombaria. Mas quando os Estados Unidos fizeram isso, o planeta simplesmente concordou. Viver na Costa Rica me ensinou o quão absurdo isso soa para todos os outros. Aqui, ser "americano" não é uma questão de nacionalidade, mas sim de geografia. Costarriquenhos, guatemaltecos, brasileiros, canadenses, todos nós somos americanos pela definição literal da palavra. Então agora, quando alguém me pergunta de onde sou, eu digo: "Sou dos Estados Unidos". Não é apenas mais preciso, é mais respeitoso.

E isso nos leva à ironia linguística da identidade estadunidense. Em espanhol, existe uma palavra clara para uma pessoa dos Estados Unidos: EUASignifica "estadunidense". Em inglês, não temos essa opção. Usamos "americano" por padrão, como se não houvesse mais ninguém com esse título. É conveniente, sem dúvida, mas carrega uma arrogância discreta que o resto do hemisfério percebe, mesmo que a maioria dos americanos nunca perceba.

Culturalmente, a predominância de "América" ​​como sinônimo dos EUA apaga uma diversidade incrível. Quando as pessoas dizem "América", o mundo não pensa nas montanhas do Peru, na música da Colômbia ou nas florestas tropicais da Costa Rica; pensa na Casa Branca, no beisebol e nas redes de fast food. A riqueza da diversidade cultural é inegável. as Americas Torna-se ruído de fundo em uma história contada a partir de Washington.

Eis uma curiosidade que vale a pena repetir: as Americas abrangem mais de 42 milhões de quilômetros quadrados, da tundra do Canadá às praias do Brasil. No entanto, apenas um país, representando menos da metade da população deste hemisfério, insiste em ser chamado pelo nome de todos eles.

E depois há o “Golfo da América”. Sim, essa é uma expressão real que circulou nos círculos políticos dos Estados Unidos, como se uma simples mudança de nome pudesse reescrever a história. O Golfo do México, uma massa de água que existe muito antes de qualquer bandeira ter sido hasteada sobre ele, de repente se torna o Golfo da AméricaÉ quase de rir. Talvez da próxima vez renomeiem o Caribe para "Mar Americano". A ironia é perfeita: um país tentando reivindicar um golfo que compartilha com o México e Cuba, usando um nome que tomou emprestado de um explorador italiano que se referia a continentes que não lhe pertencem.

A arrogância de chamar os Estados Unidos de "América" ​​nem sempre é intencional, mas certamente é descuidada. Isso transmite sutilmente ao resto do hemisfério a mensagem de que suas identidades são secundárias. No entanto, a verdade é muito maior. A história de as Americas Não é apenas vermelho, branco e azul; é um mosaico de mil nuances de cultura, história e conexão. Dos vulcões da Costa Rica às planícies da Argentina, da Amazônia ao Ártico, we São todos americanos.

Talvez seja hora de um pouco de humildade linguística. Os Estados Unidos ainda podem ser poderosos, orgulhosos e pioneiros — mas não precisam ser donos do nome de um hemisfério para isso. Quando dizemos AméricaVamos entender o que os cartógrafos pretendiam há mais de 500 anos: um mundo compartilhado, que se estende de polo a polo.

Afinal, se podemos aprender a compartilhar oceanos e ar, certamente podemos compartilhar um nome.

OBRIGADO!

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